Toca a campainha. Antônio estava em casa tirando seu dia de folga. Levanta-se da cadeira, usava pantufas e jeans velho. Abre a porta. Seus olhos visualizam luz e sombra, sua mente rapidamente faz a imagem tomar uma forma geométrica tridimensional. Sua imaginação delimita aonde um objeto termina e outro começa. Aplica então as categorias do entendimento a todas as suas percepções. A memória vai ao baú encontrar o nome que identifica o conceito. E tudo isso em poucos milisegundos.
Era o síndico.
-Olá rapaz... então hoje está de folga?
-Poisé...- mal Antônio acaba de responder o síndico se atravessa.
-Pois a vizinha havia me dito. Vim apenas lhe fazer algumas ressalvas. Sabe como é, não gosto muito disso, mas é meu trabalho, afinal sou síndico do universo...
- Sei...
-Pois então, hoje é terça-feira, e recém são nove e meia da manhã. Você tem seu dia de folga. Aproveite o almoço, pense em almoçar em algum restaurante. Enquanto isso você pode aproveitar para ir ao mercado ou à feira. Mas claro, almoce meio-dia. Mas não pense em aproveitar muito o dia. Não vá muito longe, depois terá que voltar para casa. Não faça nenhuma atividade pública durante o dia, afinal, hoje é terça-feira e todos estão trabalhando. Por isso é uma boa aproveitar o almoço em um restaurante. Lá é dos poucos lugares que você poderá gozar de seu ócio sem causar insulto a quem está trabalhando. À tarde também não vá muito longe. Se for para uma praça, vá apenas depois das dezoito horas, pois antes disto as praças devem estar desativadas para os não-cachorros e os não-mendigos. As pessoas trabalham. Então, aproveite a tarde para ficar em casa. Veja que coisa boa! Você tem o seu apartamento. Cada um deve admirar a sua cela, deixe bonitas todas as suas grades e aproveite todos os seus metros cúbicos. Contemple todo o nosso sedentarismo. Se sentir-se sozinho, compre um cachorro, mas deixe-o trancado em casa, saia com ele apenas ao fim da tarde, caso ele queira defecar em público. Afinal, estamos no asfalto e no cimento, e aonde há isto o dono é o homem.
E prosseguiu o síndico do universo:
-Ao fim da tarde você pode comprar uma pipoca e ver um filme. Mas não sinta-se bem: o seu dever é ficar preocupado, amanhã e todo o resto da sua vida você tem que trabalhar e apodrecer. Se pensar em sair, espere a noite. Desde que fabricamos lâmpadas que usamos apenas a noite para entretenimento social. Nunca aproveite o dia, pois é hora de trabalhar. Quando sair, beba álcool, assim você pode fingir no outro dia que só não sentia-se culpado (por não estar sentindo-se culpado) por causa da bebida. Fale qualquer coisa com qualquer pessoa. Aja como um imbecil, mas apenas depois da terceira cerveja.
-Ok...-responde Antônio
-Ah, só mais uma coisa. Não faça barulho depois das vinte e duas horas, nem chegue tarde, amanhã todos temos que trabalhar.
Vai embora o síndico. Depois disto, introspectivamente mas sem muita atenção, Antônio descobre que pode ao menos ultrapassar os limites do mundo sensível: seguindo a rígida coleira do seu imperativo categórico goza de autonomia e liberdade. Ele é sujeito de seu tempo. Século XXI. Senta-se na frente da TV, e aproveita seu dia de folga como um imbecil.
sábado, 11 de outubro de 2008
sábado, 20 de setembro de 2008
Por entre o véu do teu conceito
Penetrando a fundo no conceito
da imagem empírica que me chama
a analisar silogismos sensuais
e desvendar os argumentos do teu desejo.
Procuro por dentre o teu conceito
todos os componentes
e estes que enquanto tais
vão tomando meu lugar.
Como pode um si mesmo
se colocar num conceito?
Pensar em ti é me auto-conceituar.
Me decifrar faz parte de te contemplar.
Mas dos mistérios que desvendo por trás do teu véu
e por dentre todos que ainda poderia esclarecer
encontro um negro horizonte
que sempre vai se esconder
Elemento irredutível aos conceitos do coração.
Encontro no fundo do meu próprio querer
teu elemento incondicionado, meu mundo desconhecido:
Tua alma, elemento indecifrável.
da imagem empírica que me chama
a analisar silogismos sensuais
e desvendar os argumentos do teu desejo.
Procuro por dentre o teu conceito
todos os componentes
e estes que enquanto tais
vão tomando meu lugar.
Como pode um si mesmo
se colocar num conceito?
Pensar em ti é me auto-conceituar.
Me decifrar faz parte de te contemplar.
Mas dos mistérios que desvendo por trás do teu véu
e por dentre todos que ainda poderia esclarecer
encontro um negro horizonte
que sempre vai se esconder
Elemento irredutível aos conceitos do coração.
Encontro no fundo do meu próprio querer
teu elemento incondicionado, meu mundo desconhecido:
Tua alma, elemento indecifrável.
Pelos teus olhos
Pelos teus olhos eu queria me enxergar.
Límpido espelho de tangentes do meu amor
ótica bandida da carne viva do meu querer
Enxergar em ti teus olhos e teu pensar
Enxugar pelo teu colo a minha dor
e deitar no solo do teu ser
Ser por ti perdido aspirante
de uma vontade bajulante
em imagem viva que condensa
as memórias mortas de meu sofrer
E nem a distância de não te saber
e nem os erros do que já foi
vão me fazer desistir
De tentar no fundo dos teus olhos
me ver.
Límpido espelho de tangentes do meu amor
ótica bandida da carne viva do meu querer
Enxergar em ti teus olhos e teu pensar
Enxugar pelo teu colo a minha dor
e deitar no solo do teu ser
Ser por ti perdido aspirante
de uma vontade bajulante
em imagem viva que condensa
as memórias mortas de meu sofrer
E nem a distância de não te saber
e nem os erros do que já foi
vão me fazer desistir
De tentar no fundo dos teus olhos
me ver.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Confissoes - 2
Entrego-te meus olhos tristes
e pergunto como tu os molda.
Traga de novo uma esperança falida,
no momento que ela viver, não vai doer.
Traga desde o início um sorriso forte
Enquanto eu de tanto morno
me esquento abruptamente em um espasmo
ao me frontar com algo que não subtrai-se ao meio termo
Aquele sorriso, que nunca vi em lágrimas
a todo instante me lacrimeja
mas ainda assim me parecia indiferença
porque morno, nunca pensaria que podia ser por mim.
Morno, solto os cadarços e vou embora
mas tonto, desde aquele ponto
Agora nos tropeços.
Indo adiante.
Me permaneço
em tua sombra.
e pergunto como tu os molda.
Traga de novo uma esperança falida,
no momento que ela viver, não vai doer.
Traga desde o início um sorriso forte
Enquanto eu de tanto morno
me esquento abruptamente em um espasmo
ao me frontar com algo que não subtrai-se ao meio termo
Aquele sorriso, que nunca vi em lágrimas
a todo instante me lacrimeja
mas ainda assim me parecia indiferença
porque morno, nunca pensaria que podia ser por mim.
Morno, solto os cadarços e vou embora
mas tonto, desde aquele ponto
Agora nos tropeços.
Indo adiante.
Me permaneço
em tua sombra.
sábado, 2 de agosto de 2008
O seu Sérgio
Matilde cortava o tomate, a cebola e o pimentão. Ferviam na panela os aromas de caldo e molho. Enquanto cozinha, Matilde não pára um segundo de jogar sua ansiedade pela boca.
- Viste que o filho da Elvira se formou. Aquele menino sempre teve jeito de doutor. Já a Denise, filha da Claudete e do seu Perera, aquela tem jeito de modelo, mas é meio vagabunda. Mas quem diria, o menino guloso do Henrique, vai casar com a Fernanda!
Sérgio lia o mesmo jornal de todos os dias sentado na poltrona da sala. Com um pouco de irritação solta seus verbos pela primeira vez no dia.
-Matilde, eu já disse: todo mundo é poeta.
- Viste que o filho da Elvira se formou. Aquele menino sempre teve jeito de doutor. Já a Denise, filha da Claudete e do seu Perera, aquela tem jeito de modelo, mas é meio vagabunda. Mas quem diria, o menino guloso do Henrique, vai casar com a Fernanda!
Sérgio lia o mesmo jornal de todos os dias sentado na poltrona da sala. Com um pouco de irritação solta seus verbos pela primeira vez no dia.
-Matilde, eu já disse: todo mundo é poeta.
notícias literárias - 1
Antônio Junqueira Pires Peixoto. Um brasileiro comum.
Foi pego nú no ambiente de trabalho.
Foi pego nú no ambiente de trabalho.
escrevedor
O escrevedor e seus fonemas
escreve o lápis e tripida com as penas
O escrevedor e seu silêncio tenebroso
Ferve versos e soa pomposo
Serve os traços e imita o poço
miraculoso e tardio escreve-moço
Ouve vozes do além e escreve estradas silábicas
e no calor resbaldante escreve versos de verão
Per-so...nificado em todos nificado.
Atado e perdido no próprio
...significado
escrevedor escreve
o ser-ninificado
escreve o lápis e tripida com as penas
O escrevedor e seu silêncio tenebroso
Ferve versos e soa pomposo
Serve os traços e imita o poço
miraculoso e tardio escreve-moço
Ouve vozes do além e escreve estradas silábicas
e no calor resbaldante escreve versos de verão
Per-so...nificado em todos nificado.
Atado e perdido no próprio
...significado
escrevedor escreve
o ser-ninificado
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