domingo, 21 de junho de 2009

Confissões - 4

Como o tempo engole as saudades
como as mentiras interpretam a lealdade
como tudo fica tão distante, quando passam os momentos
mas se mantém nos pensamentos?

As prateleiras ficam cheias de retratos opacos
no corredor ainda tudo é vazio.
As imagens falham enquanto os eventos se esfacelam
guardados poucos em gavetas que ninguém abriu

Os dias ferem o dorso de quem deve andar:
correndo, correndo, correndo sem vacilar
procurando os lugares que devia estar
e os deveres justos que podiam ordenar

O viver está submerso em um mistério
de formar uma história coerente
que nunca pode parar
que nunca pode mudar
que nunca pode escapar.

Quem soubera o que é querer!
Até hoje todos só puderam se entregar
às dúvidas das próprias certezas
a trilhar o rumo de nenhum lugar.

O dever ordena o caminho.
qualquer caminho manipula o dever.
Desejar é apenas imaginar.
Imaginar e desejar, só pode ser lembrar.

Apaga a vontade. Apaga qualquer possibilidade
de voltar atrás
de querer de novo o que devia passar.

O tempo ordena. E todos obedecem:
seguem adiante na cegueira
de construir o próprio tempo
e organizar a própria vida.

A memória esquece das ordens.
A memória desobedece o tempo.
A memória viola a lei que nos obriga
a não exagerar em qualquer saudade.

O tempo manda
"vai embora, e segue o teu caminho"
até o limite um andarilho
em uma estrada que desvia
outras vias torpes para o fim.

domingo, 17 de maio de 2009

O sublime, o esquisito

Torto.Torpe.Calado.Gritante

Chama a atenção, se olha, se estranha
olhos virados, dentes tortos, esculhambados
cor esquisita, pele podre
aspectos repugnantes

Imagem que sempre lembra dor.
Olhar...porque olhar?
e chama atenção, dá medo.

E procurar aonde, como?
Por que?
Curiosidade, o que apavora, afasta
Mas de novo, curiosidade, e se volta, encantado.

Por que?
Fora dos padrões. Como pode ser assim?
E encanta. No próprio aparecer, demonstra seus mistérios
nos enche de dúvida, de terror

Um sentimento esquisito, a todo instante transformador.
E sempre se olha, e sempre se assusta e foge
e se olha de novo.

A feiúra é linda. É original. É incompreensível.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sobre Pausa - 1

Um movimento de luz acinzentando a imagem.
Blocos de algodão se escurecem pelo horizonte.
O verde anis e o amarelo tomam palidez
e sobra um verde antipático como homogêneo.

As aves que voavam somem dali
Os rastejadores parecem encontrar algum buraco
Macacos, elefantes, e os animais mais gordos
simplesmente somem e ninguém sabe para onde.
Sobram as árvores, da calma ao desespero

Uma melodia crescente e assobiosa
acompanha os galhos e as folhas
e como se todo o verde cantasse, brabo,
um sopro amedrontador, anunciando o caso.

E logo tudo acalma.
O vento some
e tudo para de repente
para a chuva chover.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Os comunitaristas

Rafanzo 001 estava de pé, postado na posição intermediária entre as leis da terra e as leis do mundo. As regras da sua comunidade lhe exigiam. Seu co-cidadão havia desrespeitado as leis estruturais do comunitarismo vigente. Todos sabiam qual lhe seria a pena: para aquele que faz mal uso do membro, a perda do mesmo. Agenor XH3 havia agarrado a mulher do próximo com ambos os braços, agora estava prestes a perder apenas um.

Agora o comandante geral da aldeia de Tembarí estava a postar-se para dar o veredicto. Porém toda comunidade já sabia. Todos aceitavam as regras, todos seguiam as leis, todos eram um. Nada havia fora da comunidade.

-Agenor será castigado com a perda do braço, que será feita, para manter a honra da comunidade e do ainda membro desta, através da espada. Aleatoriamente escolherei alguém para prestar este serviço.- disse o general

Pasmem. O escolhido foi Rafanzo. Agenor e Rafanzo eram amigos desde a infância. Brincavam juntos, aprenderam as leis e os bons costumes na mesma escola, quando um infringia a regra da comunidade, o outro lhe reprimia. Se algum dia faltassem com respeito a um membro da comunidade, apanhavam juntos, se arrependiam juntos. Porém o respeito pelo ambiente político e social era muito mais forte que sua relação particular e privada. Não havia amizade privada, eles apenas concebiam isto como conseqüência da vida em conjunto. Todos merecem o mesmo respeito, e a unidade da comunidade deve ser cumprida.

Ao ser chamado, Rafanzo prontamente pegou a espada. Postado, Agenor esperava com ansiedade o castigo. Estava prestes a purificar sua dignidade perante sua comunidade. A mulher com quem tinha se envolvido já haviam-lhe arrancado o útero. Antes da conclusão da cerimônia de purificação, não se olharam. Rafanzo em nenhum momento titubeou, não teve dúvida: aquilo era para ser feito.

...
O braço agora era parte independente do corpo de Agenor. Um pouco de sangue, logo tomaram-se os cuidados para estancar o sangue. Nenhum grito de dor, nenhuma risada ou comportamento desrespeitoso por parte do público, nenhum ódio. A comunidade estava novamente limpa, o arrependimento tomou conta das atitudes, o castigo foi realizado, o equilíbrio reconstituído.

No outro dia os amigos Rafanzo e Agenor combinam de sair juntos. Sentam sobre a mesa e pedem cerveja. Conversam sobre futebol, e como bom amigo, Rafanzo compreende a situação do seu amigo, sem um braço, e sempre lhe serve o copo de cerveja, com muita educação.

domingo, 12 de abril de 2009

Sem tema

Uma poesia pelos dias que passaram
pelo dia qualquer
por qualquer acontecimento.
Por esses dias, que memória é esquecimento.

Uma poesia sem tema
de quem quer falar sem dizer,
é paralisado pela censura
desse dia qualquer.

Um rumo certo, cada dia mais perto
atordoado pela lembrança
dos esquecimentos dos dias qualquer

Preenchidas as lembranças dos dia qualquer
em um momento perdido
e a poesia sem tema se exclama
sem conseguir se encontrar

Poesia sem tema
é sempre sobre amor.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Nós, os homens

Nós, os homens, quando sozinhos
sofremos de solidão;
quando odiados
sofremos perseguição.

Nós, os homens, quando amarrados
sofremos de tensão;
quando mal-amados
sofremos o augúrio do coração

quando bem bolamos,
sabendo tudo que conquistamos
as esperanças que destilamos,
então tudo alcançamos.

Mas, ah! Tem na visão do destino
o seu canto de escuridão;
a melodia confusa alardindo
a desordem da tentação.

Nós, homens, quando vazios
sofremos o tédio
e quando desejamos o que não desejaríamos
somos levados pelo furor do assédio.

Nós homens
sofremos tristezas
sofremos remorso
sofremos ansiedade.

Eu, homem, sofro de humanidade.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Interlúdio apagado

Eu sou o pó atrás das nuvens
a margem negra do espelho dos homens
Mórbida mordaça que cala o tempo
Estúpida carcassa jogada ao vento

Eu sou o que vem depois da virtude
a mancha apagada na cicatriz do vício
A imagem opaca do cego que crê
estar tonto demais para ver

Estontiante ternura amassada no contraponto do elegante e do vil
escondinda fragrância do desdentado que sorriu

Já fui!
A vida atravessa a alma e crava a angústia da pequenez.
Ó todas as coisas,
o que fui eu?

Maldita estaca que me rebaixa
estou além do tempo perdido
enquanto a órbita se encaixa
e a vida aparece como um morto adormecido.